domingo, 30 de Setembro de 2007

ESTREMOZ -Mercado/Feira da Ciência

Mas a ida a Estremoz, neste Sábado de Agosto, tinha fundamentalmente em vista visitar o antigo Convento das Maltesas. E o Centro de Ciência Viva, do Polo local da Universidade de Évora, com o seu estendal de coisas maravilhosas da Ciência – para ver, mexer, e entender. Que pena não poderem deslocar-se à Feira e aos mercados semanais para mostrar àquela gente como funcionam os Vulcões, como evoluiu a Terra desde o seu grande Continente único até aos dias de hoje – ameaçada de colapso. Exibir em público o monstruoso esqueleto dinossáurico ou permitir aos curiosos mercadores medirem a radioactividade dos calhaus trazidos lá do Monte!
o Clinton era um bandido
o Bush não fica atrás
quem vier – não faz sentido
venha a ser um bom rapaz

sábado, 29 de Setembro de 2007


treino para plantar fotografia:

sexta-feira, 28 de Setembro de 2007

rosas/prosas


flor bonita para primavera imprecisa

(h)ortografia


quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

estendais de roupa - 4 sugestões para trabalhos académicos

Um estendal de roupa é sem dúvida um manancial inesgotável de informações:

1- económica
um estendal de roupa de Bairro suburbano ( de Barracas, no extremo) é necessariamente diferente de um seu similar onde residam classes médias. E diferente ainda de outro onde predominem moradores com elevado poder de compra.
Em Évora, por exemplo: Cruz da Picada; Bairro da Câmara; Cartuxa ou qualquer dos recentes condomínios.
fotografar e analisar de maneira sistemática, ao longo do ano, qualidade e marcas das peças a secar - pode constituir um excelente indicador do poder-de-compra de quem habita determinado espaço urbano.

2- sociológica/demográfica:
constituição do agregado familiar: pai/mãe solteiros; número de filhos; sexo dos mesmos

3- psicológica/afectiva:
distribuição da roupa no estendal: roupa íntima da mulher; roupa íntima do homem; roupa íntima dos filhos. Qual a ordem? Tudo misturado, de forma aleatória? Obedecendo a uma ordem de leitura fácil para o psicólogo?
Roupa de cozinha/roupa de trabalho/roupa de cama....
Mais ou menos pudor na exposição....

4- estética:
Acabo de recolher a minha própria roupa (curiosidade à margem: um par de meias, à falta de molas, ficou apenas suspenso no arame. O sol secou-as, quando fui recolhê-las só uma continuava no local original. O vento encarregou-se de depositar a outra, caprichosamente, no alguidar da roupa - que estava aí a uns 3 metros)
Cores - camisetas de Verão predominando- entre o branco e o preto, passado pelo azul-tinta-de-escrever-da-instrução-primária até ao cor-de rosa. Calças de ganga chinesas cor-de-ganga desbotada; duas camisolas interiores naturalmente brancas, cuecas - do azul ao encarnado.
Estava um estendal bonito.
Fosse ele o meu amigo Joaquim Tavares a ordenar este estendal, e ai vos asseguro que o resultado, em termos estéticos, seria ainda bem mais apelativo.

Duvida?
M E T A F Í S I C A
( no intervalo duma aula de condução )
há muito mais metafísica
em chupar caracóis
do que na burguesa pessoana prática
de comer
chocolates
chocolates são uma coisa lisa
plana
geométrica
euclidiana
em que predominam rectas
planos pontos
ângulos
quadrados ou rectângulos
que destacamos com os dedos
com estalinhos secos
que nunca distinguimos
se são do quebrar dos chocolates
se dos próprios dedos
5º. postulado de euclides:
“se uma linha recta
cai em duas linhas rectas....”
aí está o chocolate. Euclides
há dois mil e trezentos anos inventou a fórmula
da forma chocolatiana.
Que metafísica pode haver
na forma física
duma tablette?
Já com os caracóis
assim não acontece
começa porque não são lisos
planos
chatos – como os chocolates.
São helicoidais
a um produtor de chocolates chama-se friamente
um industrial
Chocolateiro? Já viram bem?
Um produtor de caracóis
designa-se
aristocraticamente
por helicicultor!
A geometria da estrutura
cálcica do caracol
é não-euclidiana:
elíptica talvez
ou hiperbólica
Não tanto da área de Pitágoras:
num triângulo rectângulo....
apelando mais
à utilização de PI
onde pois
a maior concentração
de metafísica?
E mais:
você come um chocolate
e o que sobra?:
uma prata amarrotada como um lenço de papel
(acabado de assoar)
uma estúpida paisagem
dos Alpes da Suiça
com uma vaca azul
de manchas brancas
pelo contrário
e a questão aqui já é da própria Física -
você suga
os caracóis contidos num pequeno prato
e os despojos
já não vão caber
num pratinho exactamente igual
que lhe puseram
ao lado do copo de cerveja
Porquê?
Parece legítimo perguntar
e entraríamos então
nos domínios de Arquimedes:
que é -como sabe -uma mistura
de Euclides
e Aristóteles, entende?
Onde, pois,
mais metafísica?:
em comer avidamente chocolates
ou chupar
tranquilamente
caracóis?
Para não falar
da clitoriana
textura
do molusco
Antonio Saias

fonte mágica

o homem fazia café, que bebia, mas nunca chegava ao fim da chávena.
às vezes nem a meio.
um dia verificou que uma chávena da café lhe durava o dia todo.
Começou a fazer menos café,
e mesmo assim
tinha café para todo o dia.

um dia fez uma chávena cheia
de café
e constatou
que o café lhe durou
uma semana

Assim sucessivamente
até
que uma chávena de café
lhe durou
até
à morte

quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

recado a um editor amigo

Fernando, amigo, continuas a merecer a minha estima: por ti como pessoa, pelo trabalho que te preenche a vida - com inegável interesse para a sociedade "complicada" em que vivemos.
Não vou deixar de te acompanhar.
Ficaste triste comigo porque entendi deixar as nossas velhas "instruções primárias". Que chegou aos 50 leitores diários. Não vai ser fácil retomar essa "audiência".
Só que, Fernando, agora eu passo a escrever o que me dá na pinha, publicando quando me apetece, sem ficar sujeito às contingências das tuas múltiplas ocupações.

um bom abraço para ti, e os melhores votos de continuação dum trabalho profícuo. Continuo à espera de que venhas sem demora à Quinta Nova tomar um tinto com o que não deixou de ser um teu amigo

vi um sapo

Um sapo não é propriamente o mesmo que uma râ. Não é uma rã de sequeiro. Devem pertencer à mesma família, julgo que ambos são anfíbios, precisam de manter a pele permanentemente húmida porque praticam para além da respiração pulmonar a chamada respiração cutânea. Mas o sapo que eu vi hoje era uma espécie de travesti de rã: pequeno, ternurento - nada como os velhos sapos gordos, bolachudos, com os olhos esbugalhados, peçonhentos, que na Escola nos ensinavam que mijavam para os olhos dos miudos e os cegavam dum momento para o outro.
Nada disso! Saiu-me inadvertidamente enrolado numa leiva, de mistura com algumas batatas que sobraram da colheita na época devida.
Era dum cinzento esverdeado, uma espécie de musgo, de esfregão de lavar a loiça com uns olhitos bem discretos. Mesmo assim não via um sapo há muito tempo. Sapos, rãs, salamandras ao que parece estão em vias de extinção. Não lhes punha a vista em cima há muitos anos.
Quem não se apercebeu ainda de que a vida sobre a Terra está mesmo ameaçada. Quem, das novas gerações, sabe ainda o que é um pirilampo? E uma arvéola? - que as havia aos milhares -
quando as aivecas afiadas fabricavam leivas como agora se retira a manteiga para pôr nos papo-secos? E as minhocas? Adubos, pesticidas, herbicidas não estarão também dando conta das minhocas?
Biocidas?
E as calhandras? próprias desta época, povoando os restolhos, deixando-se apanhar de maneira ingénua, de noite, à luz dum candeeiro?
Fiquei feliz porque vi um SAPO. Se conseguisse torná-lo residente, lhe chamaria Al-Gore!



terça-feira, 25 de Setembro de 2007

ciência e algum humor

A investigadora de Harvard, senhora Sheila Kennedy, vem 5ª.Fª. (28) ao Porto apresentar um tecido capaz de substituir energia eléctrica, pelo menos para efeitos de iluminação.

Comentário rimado:

se uma camisa dá luz
uma cueca energia
como é que podem os nus
gozar da luz algum dia?

Está-se mesmo a ver!!!
O SEMEADOR DE GATOS

A gata matriarca - sabem - está parida outra vez. Uma ninhada de 5 exemplares
Não peçam que os descreva, tão diferentes são todos uns dos outros. Verdadeira biodiversidade
cromática gatil. Cada um com sua côr, cada côr com seu design

ontem arrisquei pegar no carro e ir à Igrejinha. De sem trabalhar há tanto tempo, o radiador chegou a apitar, no regresso ao Monte.
abri o capô para espreitar, eis senão quando espirra a gataria de tudo quanto é espaço devoluto no motor.
Foram e voltaram, esperaram o tempo de eu comprar tabaco e tomar e bica, e trocar duas lérias
com o meu velho amigo guardador de vacas, que não via há meses - desde que fiquei oficialmente proibido de conduzir.

Espirraram todos menos um. Estilo panda, esbranquiçado, pintalgado de preto no dorso e no focinho. Tinha-se enleado no novelo de fios e de tubinhos que levam água ao limpa-pára-brisas.
E não é que quando tento libertá-lo - porque estava mesmo em vias de se estrangular- dá em soprar raivosamente contra mim e ferra-me os dentes afiados no indicador da mão que tentava libertá-lo?
Sei agora que quando tiver carta e voltar a poder sair de carro se impôe uma rigorosa vistoria ao interior da Gatil ambulante em que está transformada a minha velha viatura.

um bom e assanhado abraço deste
que
?????????

nascido do acaso
como as árvores
da mata?

ou
por sortilégio
caprichosamente só
como a acácia
de Régio?

domingo, 23 de Setembro de 2007

só ver
sorver

só ver sorver se houver
sorvete

e língua
para ler

que da língua vem tudo
a vela o velo
o alvéolo
de veludo

e sobretudo
o chão
do acto
de sorver
OS FIGOS

colhi figos lampos
cheios de açucar do tempo

vou comê-los sózinho
-já sei
como se tu fosses
o açucar
por dentro
ASSIM FALEI A “ZÉKUSTOPA”
( Só com o meu hálito já consegui fechar 3 bailes , ou coisa semelhante, de Alexandre O N´eil)
O NA tem usado da generosidade de publicar as minhas intermináveis “choradeiras”, escritas a partir duma interminável prisão domiciliária. Um desses desabafos era contemplado com 3-4 comentários a propósito, dois visivelmente favoráveis à minha causa pessoal ( que era/é também de milhares de cidadãos incautos – ou que têm mais com que se preocupar do que controlar a vigência da sua carta-de-condução) – um outro, não deixando de ser simpático, chamava a atenção para os deveres cívicos dos cidadãos: “o senhor António Saias, que até parece um tipo giro, não sabe que é sua obrigação conhecer as leis....
cumpri-las.... etc.etc.
Assinava, se não estou em erro: ZÉKUSTOPA.
Zékustopa – que bom seria que voltasse a ler-me. E o fará, estou seguro, se não tiver de tal ordem enjoado o cronista modesto – redundante, chato – que pouco mais faz do que falar de si.
Zékustopa, lembro-me de ter comentado na altura as suas “judiciosas” observações sobre a universalidade das leis (abrangem todos por igual) , a imperiosidade de serem cumpridas, não sei quê não sei que mais!!!Amigo Zékustopa, iguais para todos? Santa ingenuidade a sua, devo ter dito na altura! : o carro do primeiro ministro igual, perante a lei, ao chaço do ocasional (porque desempregado) distribuidor de cosméticos ao domicílio!!!
DEVERES CÍVICOS:
Indiscutível a necessidade de leis que regulem a actividade humana, que normalizem desde o vasto mundo dos negócios às simples relações interpessoais. O senhor tem razão. Nem o mundo pode rolar sem isso!
Mas, não menos importante do que cumprir as leis, me parece que é dever de todos analisá-las cuidadosamente, contestá-las, combatê-las, apelar à sua revisão – desde que elas nos pareçam imperfeitas ou iníquas. Foi o que fiz, amigo Zékustopa, com a cumplicidade activa deste órgão de comunicação social – que desde sempre deve ter entendido como justas as minhas reivindicações. Que, ao que parece, ultrapassava os interesses meramente pessoais de um “maduro” qualquer que se esqueceu de renovar atempadamente a carta : passo a citar, em itálico, partes do Despacho nº. 18 948/2007, de 2 de Agosto de 2007, por coincidência a data precisa em que este tipo, que até parece giro, passava pela (a)provação de ter que responder acertadamente a 27 em 30 perguntas do Código da Estrada. O Despacho dimana da Secretaria de Estado dos Transportes, e termina com a advertência: Este Despacho entra imediatamente em vigor.
Zékustopa, ficam para trás o pagamento integral a uma Escola de Condução local – praticamente igual ao que o seu “tipo giro” aufere mensalmente de pensão de reforma-; mais cerca de 2 meses à boleia (Junho/julho) entre a Quinta-Nova e Arraiolos, no caldo das temperaturas mais altas do ano; mais não sei quantos serões na Net para aprender a discernir entre “passagem de peões” e “passagem para peões” ;
mais quatro ou cinco meses a pedir aos amigos que me venham buscar a casa, ao Monte, para ir às compras, ou mesmo para uma nocturna partida de sueca.
Em 2 de Agosto, como referi atrás (datas da minha aprovação no exame de Código e – acaso – da publicação do Despacho da Secretaria de Estado dos Transportes, que vou passar a referir)
renasceu em mim a esperança de me libertar de vez da serrazina burocrática em que me tinha atolado. Engano meu: as marcações de exames de condução estavam atrasadas pelo menos 7 (sete) semanas. O que, tomando como “balliza methódica” o 2 de Agosto, não me permite uma perspectiva optimista ainda para o mês de Outubro. Isto se tiver a ventura de chegar a exame calmo, após um serenal qualquer comprado na Farmácia, e numa marcha-atrás regulamentar não tocar com o pneu de trás na aresta do passeio.
Porque, se semelhante calamidade me tocar à porta, com pouca coisa ainda vou varar o Inverno nesta trangladança.
Isto remete, como certamente o Zékustopa já se apercebeu, para uma outra Guerra – genericamente a das Listas de espera- que teve agora o seu expoente máximo na ida de 15 conterrâneos algarvios a CUBA – com a finalidade de serem operados às CATARATAS.
Não julgue, meu amigo, que não me questionei já se não seria muito mais rápido, e fácil, ir fazer exame de condução às Caraíbas!
Claro que a culpa disto tudo não é do actual governo. Que até parece ter escutado o meu apêlo contra esta aberração de punir de maneira exemplar o CRIME de alguém se esquecer de renovar a carta. A questão é mais serôdia, e dá pelo nome – cheio de actualidade – de CATARATAS. A legislação portuguesa sofre disso mesmo – nem miopia, nem estrabismo, nem outras disfunções dos órgãos da visão, nada disso, a legislação portuguesa é de CATARATAS.....iniludíveis que sofre
Caro ZéKustopa, retomaria o Despacho não sei quantos, de Agosto deste ano, versando a matéria que o meu amigo achava, em seu douto entender, que todo o cidadão tinha mais que cumprir do que contestar:
........ é facultada aos titulares de título (passe a redundância Secretarial) de condução, cuja caducidade se tenha verificado há, pelo menos, dois anos ( caso do modesto cronista e contestatário, e de mais alguns milhares de condutores neste país – honrosa excepção ao meu amigo) a possibilidade de renovarem o seu título na prova das aptidões e do comportamento...... que não é bem a mesma coisa que ter que sujeitar-se a exame clássico, como quem se habilita pela primeira vez.
Caro Zékustopca, não percamos mais tempo ( o senhor e eu, que ainda tenho batatas pra colher e espinafres para semear). O senhor que é um legalista acérrimo, que defende a estabilidade destas coisas – Códigos de Hammurabi, romanos ( em que tudo ainda se baseia)
dá ou não uma ajudinha para acabar com esta aberração das sete semanas?
Vá lá Homem, é só uma assinaturazinha!.....
De gratidão antecipada queira receber um bom abraço
António Saias – o tal tipo que até parece “giro”
Exmos senhores
68 anos de idade, sem carta de condução desde Maio – porque não me lembrei que tinha fazer renovação do documento aos 65 anos. Já disse que considero uma imperdoável lacuna, em plena época informática, que cada Direcção (regional) de Viação não faça chegar junto dos utentes, em tempo útil, a informação de que a validade da sua carta de condução vai terminar.
Punir este esquecimento com a apreensão da carta e a obrigação de fazer exame de condução de novo é no mínimo CRUEL. Para não lhe chamar um acto de TORTURA.
Vivo, sozinho, num Monte, no Alentejo. Aos 68 anos de idade – o transporte automóvel é parte integrante, mesmo elementar, da minha autonomia. Não há transportes públicos que permitam deslocar-me a Arraiolos ou à Igrejinha, fazer as compras necessárias à minha subsistência. Para não falar da probabilidade elevada de necessitar, aos 68 anos, de uma deslocação urgente por questões ligadas ao foro de saúde.
CONSEGUI LIBERTAR-ME de um discutível exame de Código (reprovam 70-80% dos examinandos) no dia 2 do presente mês.
Conduzo desde os 18 anos – sem acidentes graves, sem infracções que não seja esquecer-me, de 5 em 5 anos, que tenho que actualizar o maldito documento.
Julgava-me então, desde esse já distante dia 2, que estaria para breve o fim deste verdadeiro SACRIFÍCIO. Acabo de telefonar para DGV de Évora, e de ser informado de que: ah, sabe, há falta de examinadores…..estamos agora com um atraso nos exames de cerca de SETE SEMANAS…..
Exmos senhores:
Isto significa que, mesmo que eu tenha a sorte de passar à primeira vez, vou ter que Esperar aqui no Monte ainda mais Dois Meses para reaver a minha carta de condução?
Adoro, desde a primeira leitura, o nosso Nobel Saramago. E as suas recentes declarações públicas sobre a inevitabilidade de nos juntarmos aos espanhóis não deixou de me surpreender e até chocar!
Tenho o maior respeito pelos Hino e Bandeira Nacional; pelas Maria da Fonte e Padeira de Aljubarrota; a maior admiração pelos actos heróicos de D. Afonso Henriques e Nuno Álvares Pereira; pela ousadia e espírito de aventura de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral….
Mas olhem que essa tal de IBÉRIA – já entrevista pelo Nobel em Jangada de Pedra – começa a não me desagradar de todo…
Um atraso nos exames de cerca de SETE SEMANAS……
Melhores cumprimentos
António Saias

sábado, 22 de Setembro de 2007

AUTOBIOGRAFIA

ANTÓNIO JOAQUIM CARREIRAS SAIAS
Aluno nº. 203
da Escola De Regentes Agrícolas de Évora
Esboço de biobliografia:
Nasci de família modesta de camponeses, num lugar anónimo deste nosso Alentejo. Porque ainda assim distante da Aldeia, só fui registado 6 dias após ter conhecido a luz do dia. Nasci a 10 -oficialmente o acontecimento só tem lugar a 16.
Tenho, se calhar em relação todos vós, um saldo de uma semana de vida a meu favor.
Fiz a Escola Primária no Lugar, entre rapaziada descalça e de mão certeira na pedrada. Nas cidades
leva-se as crianças a passear aos espaços verdes, nós alí nascemos e crescemos todos em pleno espaço-verde: água no Inverno – com valas e ribeiros a deitar pra fora, nós todos chapinhando, descalços, até entrar na Escola. Espirros, constipações, ranho que limpávamos à manga da camisa, febrões em casa – eram pão-nosso-de-cada-dia.
Primavera a seguir: Carnaval, Páscoa, ninhos, grilos, favas e ervilhas à beira dos caminhos, os primeiros ninhos de pardais nos telhados da Escola e nos sobreiros, a pedrada da fisga, da funda, ou apenas dos bíceps distendidos.
A Escola, de chão assoalhado, tinha um corredor com cabides nas paredes – onde pendurávamos a roupa mais pesada e os magros lanches que nos tinham preparado em casa. Um Cristo – esplenético, sei hoje, quer dizer tristonho, macambúzio, mudo- na parede, ladeado por um Salazar viçoso e um Carmona carregado de medalhas e condecorações.
Anunciávamos a nossa entrada com um roçar de calcanhares, um estender de braço direito em continência, um “sô professora dá licença?”. E acomodávamo-nos sossegados na carteira.
Os desejados intervalos eram preenchidos com corridas estouvadas no Pátio de recreio, às vezes sobre os próprios muros – o que implicava quedas aparatosas com rasgões na carne e sangrias nem sempre fáceis de estancar. Salto ao eixo, agarra, escondidas, o incontornável pião – com as intermináveis variantes- . E a Pata. Que era uma antecipação de jogos marciais, praticado com um pequeno troço de madeira, aguçado nas extremidades, percutido por um pau mais longo – o pateiro -
que tanto servia para projectar a “pata” o mais longe possível como para esgrimir contra o adversário em caso de resultados menos consensuais.
Verão:
Caça aos pardais novos, aos primeiros perdigotos, banhos nos tanques de uma outra quinta que permitia o exercício ( nem sempre fácil, já que a rapaziada a cada mergulho entre limos e lodo rilhava uma maçã sacada à macieira mais a jeito); preparação intensiva para exames, se era caso disso: 3ª. Classe na Aldeia; 4ª. Classe na sede de concelho. Sempre precedidos de banhos escrupulosos.
Com a 4ª.classe era inadiável uma visita àEstação de Caminhos de Ferro, para vislumbrarmos um Comboio pela primeira vez. Tudo explicado em pormenor pela Professora, que aproveitava para nos massacrar com uma revisão daquela coisa chata que era ter que saber de cor as linhas do Douro, e do Tua, e do raio que os partisse.
A esta fase – 4ª.classe – já não chegavam meia-dúzia. A maioria mourejava atrás de varas de porcos ou rebanhos de ovelhas, iniciava-se na ceifa e na debulha, ensaiava o machado na limpeza dos chaparros.
O pai, que cedo se libertara da condição de carreiro assalariado, fazia searas em parceria com os donos das herdades, prosperava a olhos vistos, à custa de muitas madrugadas a labutar nos campos.
O único irmão – dez anos mais velho- colaborava no esforço insano das searas, na ordenha das ovelhas, na engorda dos porcos – com tal sucesso que se julgaram reunidas as condições materiais
para o “rapaz” poder estudar.
Liceu em Portalegre, 5 anos – que era o quanto havia- com resultados médios, como sempre na vida, com professores marcantes como o destacado escritor/poeta José Régio. “Dávamos Grandes passeios aos Domingos” - e dávamos mesmo, e eu fazia parte dos privilegiados que o acompanhavam.
Como não havia 7º. Ano em Portalegre, era inadiável escolher onde proseguir os estudos.Porque mais próximo, porque o mais adequado: pais e irmão sonhavam que eu pudesse associar-me, e dar um contributo válido ao seu esforço até aí bem sucedido, sugeriram, sem grande hesitação, Évora e a nossa Escola Agrícola. Conheci, num Baile na Aldeia, um colega mais velho – um Piga, se a memória não me falha – que cuidou de me catequizar em definitivo: rapaziada fixe; marialva; boémia; que estudava um bocadinho no meio daquilo tudo.
Nem mais, era o perfil ( como hoje se diz, volvidos alguns anos) ideal para o meu projecto de vida.
Breve reunião familiar para selar a decisão; pedir informações sobre prazo de matrículas; custo de propinas, outros esclarecimentoss considerados úteis.
A Escola Agrícola – não sei se com vocês aconteceu o mesmo – foi como que uma decisão afectiva, antes do mais. Podia ser a Medicina ou a Astronomia; a Veterinária ou o Ballet clássico; o Direito
ou uma dessas muitas Ciências esotéricas. Foi prá li!
E Alí começou o descalabro. A loucura; a paranoia; o deboche; a bebedeira. Três anos de insanidade mental, de peripécias de novela – protagonizadas ou simplesmente partilhadas com os colegas.
Já não sei com quem foi que uma vez no Jardim Diana, frente ao Templo, simulei um suicídio, com pistola de alarme, ante uma gaja qualquer por quem estaria momentaneamente apaixonado e me sentia traído. O colega tinha por missão seduzi-la, tentar pelo menos compartilhar o banco de Jardim rodeado de roseiras em plena floração
" você com outro, sua megera...." pum-pum – dois disparos de pistola de alarme que puseram a rapariga em pânico. E o colega, que não deixou de se assustar ante uma cena com desfecho conhecido mas sem enredo encenado com o cuidado requerido.
Caçámos e pescámos sem licença: uma cena da melhor antologia – Julgo que com o Manuel Paulêta: derrubámos-lhe os pombos um-a-um, a tiro de caçadeira, do coruto da cabeça de mármore do Moisés, do grande Lago circular. Fomos cozinhá-los a Valverde, numa República qualquer, e petiscar numa tenda de lona montada para as bandas do campo de futebol – onde acontecia um espectáculo de Circo. Em verdadeira jornada (noitada, melhor) de confraternização, lá estávamos nós, autores da tropelia, mais os artista do Maior Espectáculo do Mundo – no intervalo da execução dos seus números arriscados. E, pasme-se, o próprio Manuel Paulêta, que fez questão de elogiar o requinte gastronómico do acontecimento para que fora convidado. Ao descobrir o logro, Paulêta atirou-se ao ar, gritou, barafustou, sei que houve mesmo sarrafusca, chinfrineira, tachos vazios voando contra o inimigo, o espectáculo foi prontamente interrompido, com a promessa de ser repetido na noite que se lhe seguiria. Paulêta só com esforçada contensão não vomitou os pombos que acabara de comer e de saber que eram os seus.
Do resto não me lembro. Sei, contudo, que fui eu quem pacificou o convidado embravecido, com a promessa de que no regresso das férias mais proximas o contemplaria com "o dobro" dos pombos sacrificados a partir da cabeça da estátua de Moisés.
Algum de vocês devolveu os pombos a Paulêta? Nem eu. A despeito de, sempre que me via, me atirar com a dívida em aberto. Mesmo volvidos alguns anos, era incontornável a pergunta: então e os meus pombos? Já fizeram criação?
O Doroteia roubou as galinhas à velhota Felismina – a mulher do velho joão! O galinheiro era nas proximidades da Casa do nosso saudoso Director, o inimitável engº. Matos Rosa. Alguém se lembra?
Felismina caprichava nas galinhas, cujos ovos eram devidamente numerados, para efeitos de comparação empírica. No cêsto e na sertã. E cometia a ingenuidade de exibir o produto à rapaziada:
o três e o cinco são das pedrezes, as mais novinhas, enregaram a pôr há coisa de um mês. Para o Doroteia esta informação estratégica era tão valiosa como para os americanos saberem que tipo de balística estava a ser desenvolvida pela indústria de Guerra no Irão. Só não esfregava as mãos para não levantar suspeitas à sua vítima mais próxima.
Felismina detestava o Doroteia. Chamava-lhe o Pantera.. E foi, desta vez, o que lhe chamou, quando
o colega franqueava o Arco, vindo do galinheiro de Felismina com as galinhas pedrezes estrebuchando dentro de uma despropocionada mala de cartão. Lá vai o Pantera. Onde irá ele de mala a estas horas?
E as galinhas – só lhes faltou cacarejarem para se denunciarem de maneira escandalosa.
Fui um aluno médio, aliás como a esmagadora maioria, não se pode dizer que houvesse neste grupo alguém dotado de maneira a dar nas vistas. Uma saudável e feliz mediania.Tinha a mania da escrita, se calhar até nem era mau de todo, sei que publicava os meus poemas, e outras estórias, na Democracia do Sul, e até tinha por vezes ( o que não acontece agora) um certo feedback. Desenterrei, nesta embrulhada de papéis, um pequeno poema da altura (16-18anos) , que releio com algum agrado. De amor e paixão, claro:
JOGUEI A MINHA ALMA À RUA
joguei a minha alma à Rua
como se joga um vintém
Hoje ando nu, ela nua
que a roupa minha era sua -
a ver-me nu se entretém
Ao vê-la – sempre onde estua
a podridão, o desdém-
recorro às estrelas, à lua
que não me chega uma Rua
onde me jogue eu também
Era assim, as miúdas agradavam-se destas coisas, embora não fossem muito à bola comigo a partir do momento em que me conheciam. Desbotado também anda por aqui outro poema, este dedicado a mim, publicado por uma tal WADYR – que ainda hoje não sei quem é. Mas era lindo! Começava assim:
um pássaro esguio
pousou-me
tinha as asas vermelhas
lancinantes
o bico enorme, dourado,
apontado para o Céu
......................................
Desde sempre – até hoje – não me considerei poeta. Sou um criativo. Alguém que procura simplificar as coisas. No intervalo deste escarafunchar no baú da memória fui lá fora – acabar um cigarro e ver as minhas favas e ervilhas (estas quase prontas a comer) cultivadas exclusivamente dentro de água. A NET, que tem hoje tudo o que de mais avançado se faz em todo o mundo, não contempla as "culturas em placas flutuantes". É uma espécie de Hidroponia acessível a qualquer agricultor, recusada, contudo, pelas Universidades e Centros de Investigação da especialidade. Não para me dizerem maravilhas, o senhor é genial, só para verem. Não cumprem sequer a gentileza mínima de acusar a recepção Vivemos num país obscuro, conservador, abstruso, retrógrado mesmo.
É bom o que vem de fora – dos States ou de Israel. E contra isso eu lutei sempre
O Zé Macaco e o Vitorino utilizaram muitos anos um carrêto de pesca concebido por mim e construido já nem sei por quem. Mesmo volvidos alguns anos, o carrêto simplex continuava a trabalhar.
Escrevo, desde então, como refúgio. Não por vocação. É certo que também gosto das palavras, da sua capacidade inexplorada de gerar ideias e até coisas. PESSOA tem por decobrir ainda um denso espólio de registos de patentes, de projectos – que só serão poéticos porque é Ele a descevê-los.
Pessoa só é poeta
porque ninguém acredita
que a sua força secreta
é mais ciência que escrita
Terminado o Curso, estagiei perto de casa – na Fundação Abreu Callado- em Benavila, de onde retirei material para o obsoleto, anacrónico Trabalho- de – fim- de Curso, que levaria dois a três anos a produzir. Tive uma nota marginal – entre o dez e o doze, já nem si – que acabaria por me dar uma qualificação final de 12,3, ou coisa parecida, que caraterizava bem a minha mediania. De sempre! Mesmo quando fiz uma licenciatura em Sociologia, ou, mais recentemente, um Mestrado em Ecologia Humana.
No momento ( Primavera de 2007) estudo Literatura e Artes. Tudo, sempre, na Universidade de Évora.
Nos princípios da década de 60 rumei a África. Após um Curso de especialização em Fitossanidade na Estação Agronómica Nacional – em Oeiras. Moçambique, como inspector fitossanitário, uma dúzia de anos dividido entre a rotina do trabalho de funcionário do Estado e a escrita, que ia publicando nos Jornais diários da então Província Ultramarina: Crónicas semanais (relativamente bem pagas, para a época) no Diário de Moçambique; poesia no Notícias da Beira; alguma colaboração esporádica em Jornais e Revistas da "Mãe-Pátria". Em princípios de 70 cheguei mesmo a ver um poema meu publicado pela melhor Revista portuguesa – a Colóquio /Letras, da Gubenkian. E um outro musicado pelo maestro Artur Fonseca, o da célebre "Casa Portuguesa". Pouco mais do que isto!
Como regente-agrícola, fiz uma mão-cheia de asneiras bonitas, inspirado nas leituras de Renné Dumond, um terceiro-mundista convicto – julgo que ainda vivo – entre outras coisas conselheiro técnico para a agricultura do detestado/amado Fidel Castro.
Tentei introduzir – com sucesso local e temporário – a utlização das nossas "PICOTAS", no Norte de Moçambique, para aliviar as mulheres nativas das subidas íngremes, escarpadas das margens das linhas de água, em cujas imediações faziam hortas. Fiz programas, em colaboração com as Escolas locais, em pleno Mato, para a intensificação da cultura do cajueiro. Ficaram por lá alguns milhares, que os meus chefes nunca souberam sobrepôr à minha forma anáquica de ser funcionário do estado: incumprimento de horários, aversão visceral a produzir relatórios de actividade mensais, indisponibibilidade flagrante para participar em cerimónias oficiais de fachada... entre outras.
Não prolongaria este capítulo, deixando à Vossa imaginação o trabalho de reviver mentalmente algumas "lendas" que o próprio tempo foi criando à minha volta. Em que a minha vida é pródiga, mesmo no momento em que escrevo estas memórias.