Sábado, 20 de Setembro de 2008

CRISE

INSTRUÇÕES PRIMÁRIAS


COMO QUE DIÁRIO


O prazer de escrever, ou o sabermos que somos lidos mesmo quando escrevemos para nós próprios.
Efeito des:
Desafrodisíaco
Desaperitivo
Sem telefone:
Pequeno incêndio nas grandes ruínas da Fábrica do Divor, poste de telefone queimado pela base, fios fundidos, sem telefone e sem Net, sem saber o que é feito do rosto de anciã, a que chamei de Rostro-Povich.
Ontem à noite -11 e pouco – ao regressar a casa, encontro inesperado com um bando(?), vara(?), rebanho (?) de javalis:
Seis – contados – com uma extensa prole impossível de contar. Como já conhecia de África, ficam apardalados ante a luz intensa dos faróis do automóvel, enrodilhados como cardume sem comando. Tinham atravessado uma cerca de arame farpado, em carreiro bem nítido, que até podia ser de um único exemplar. Qual quê! surpresa ao ver uma fila tão longa e homogénea. Descontando as crias, claro.
Vêm do lado da ribeira, obstruída de mato, vegetação espontânea, detritos vegetais. A ribeira está ecologicamente morta, tem pegos grandes, onde seria possível e agradável nadar mas onde tudo é poluição em extremo. Não tem peixes: barbos, carpas, pardelhas, achegãs – próprios da época agrícola sem fertilizantes de síntese nem pesticidas. Sobrevivem os cágados. Nem as rãs resistem
Os javalis refugiam-se nas moitas impenetráveis da ribeira, durante o dia. À noite, já bem tarde, demandam as luxuriantes searas de milho, onde se distraem a comer e a brincar na lama ou na terra húmida que resulta das regas copiosas.
Até seriam levados a pensar que a vida é sempre assim: barriguinha cheia, circo/diversão, correria tresloucada por sobre a floresta de milho meio-maduro, cobrição contínua, não fora daqui por um mês o seu teatro de recreio já não passar de um campo desértico e inóspito – sem nada que os distraia ou alimente – a maçaroca se calhar já a transmutar-se em biodísel, os impenitentes caçadores a afiarem o dente para os seus lombos cevados, suculentos . Alguns handicapes da condição de presa.
De manhã, na mesma estrada, um casal de perdizes passeava uma reduzida ninhada de filhotes: 4. Efeitos da superpopulação de gatos – nesta hora 12, distribuídos por 4 gerações.
Lembrar ainda que, em finais de choco das perdizes, a gata matriarca logrou caçar e banquetear-se com uma que estaria perto de “dar à luz”uma pródiga filharada. Natureza cruel, ou nossa deficiente capacidade de entendê-la.
Do outro lado, próximo da ribeira, o meu filho, em viagem de calendário ao pai, na ânsia de descobrir a natureza, era contemplado com a visão mágica de uma lontra.
Descontraída, folgazona, esgueirando-se em direcção à água mal apercebida da presença do intruso.

Terminados Jogos Olímpicos e Volta a Portugal em Bicicleta, ficamos mais despertos para as coisas naturais. De natural, de como eu julgo que as coisas deviam suceder, ficou-me dos JO a notícia de que o supercampeão recordista dos 100 e 200 metros livres – um jamaicano campeão também de simpatia – doou 50 000 dólares em benefício das vítimas do sismo que assolou uma província chinesa em vésperas da monumental realização. Sendo natural que se reparta o que excede a capacidade de alguém utilizar.
No meu fraco entender, claro.

Pensassem como o super-campeão dos 100 e 200 metros das últimas Olimpíadas os incontáveis multimilionários do planeta, e não estaríamos agora mergulhados na vergonha das falências em série no país paradigma da Democracia.
Sim, porque o que acontece nos Estados Unidos da América devia envergonhar toda a humanidade

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