segunda-feira, 31 de Março de 2008

ainda das mentiras

se mentir desse coceira
como sarna ou escarlatina
muita gente à nossa beira
já tinha a pele em ruina

o processo da quadra popular é fácil. difícil é fazer bem feito.
como tudo na vida.
António Aleixo, na modalidade popular, mas tambem tantos poetas alentejanos, estou a ver os da minha região: Casa-Branca/Cano/Alcórrego/Pavia, alguns deles com dimensão próxima de Aleixo. Lembro-me de Jaime Velez (da Manta Branca) de:

não vejo senão canalha
de banquete pra banquete
quem produz e quem trabalha
come açorda sem azête

havendo um tema - que dê para o poeta esgaravatar- sempre há-de surgir algum minério

hortografias

claro que não sou um purista desta coisa. Nem pouco mais ou menos.
Mas às vezes divirto-me com as broncas dos outros.
Uma vez, em Loja nas Arcadas, um cidadão oferecia os seus préstimos para dar explicações de português. Começava assim:

"ESPLICAÇÕES DE PORTUGUEZ - dá-se

conseguia, em tão curto espaço anunciante, acumular 6 erros de ortografia

hoje mesmo li esta - num blog local:
.....para depois muitos tácticos se abtuarem com o dinheiro......

maravilha.... se abtuarem com o dinheiro....

coisas injustas das palavras

o meu leitor sabe seguramente o que significa pulcra

mas é capaz de imaginar alguém a quem agradasse que se lhe chamasse filho da.....?
sim, da pulcra. Filho da pulcra

contudo, pulcra signigifica linda, formosa, elegante, distinta....

d´Abril

mentir não é
dizer que a Torre
de Belem caiu
sabendo que ela está de pé

nem tentar
fazer acreditar
que anda um leão à solta
no hemiclo da
AR

mentir é não falar
verdade

e o próprio mentiroso
mentindo
acreditar

NOTA -
esta é muitas vezes a mentira política; ou do enamorado que sonha/promete impossíveis viagens de núpcias a praias tropicais, quando sabe não poder sustentar meia-dúzia de dias de Motel de Oeiras em plena época baixa.

não sei quem definia, com rigor, político como:quem promete numa hora de comício o que leva 4 anos a tentar explicar por que não foi possível cumprir



1 de ABRIL

seja a mentira pequena
bolinha de ping-pong
mesmo assim não vale a pena:

escondê-la ninguém sabe onde

domingo, 30 de Março de 2008

1o euros de diferença

número mágico:

desculpe, enganei-me no troco:

pensei que me tinha dado trinta

EVENTualmente

na Zona do Alqueva
os nossos vizinhos já cuidaram de comprar e cultivar herdades e courelas

mostram agora indisfarçáveis apetites
pelo campo da Cultura:

ainda este fim-de-semana, a propósito de um heroi supostamente natural da região,
assistimos à reconstituição de cenas próprias do seu auge:
batalhas; refregas; escaramuças; picardias;
conquistas;
desembarques;
cortejos e torneios
- tudo protagonizado por uma equipa vestida à época e à maneira,
acolitados por aves de rapina domesticadas
e cavalos de Circo
treinados na cangocha, no salto de obstáculos,
no piafé
e até no traque.

espanhóis e marroquinos
montam arraiais nos Jardins da Vila,
trajam por figurino medieval meia-dúzia de figurantes regionais,
e aí estão eles a vender tisanas, ervas medicinais e aromáticas,
mézinhas, poções (do amor e da eterna juventude), unguentos milagrosos
para a sedução de namorados,
ervilhanas e pistachos caramelizados,
frutos coloridos de corantes tão berrantes (verdes, vermelhos, amarelos, azuis...)
que ferem a visão
como o sol olhado de frente.

mais à frente, os materiais de coiro: as pantufas, os chapéus mexicanos, as botas caneleiras de pele de carneiro ou calfe mole,
ainda mais adiante a tenda dos fósseis marroquinos, dos cristais pletóricos de energia,
dos dentes dinossáuricos, das turmalinas, granadas, quartzos brasileiros e africanos,
verdadeiras tendas de milagres

Nestas Feiras medievais reconstituidas
o papel do indígena - à exceção do que acidentalmente faz parte do elenco-
é deixar se seduzir,
mercadear
e pagar

em moeda corrente,
em euro - não mais em réis, em cruzados ou vinténs-
que o mercador vem de paragens distantes, não pactua por isso
com outra coisa que não seja
o metal sonante, de preferência nobre,
o ouro, a prata

Eis, pois, como nossos vizinhos,
de há séculos inimigos,
vêm amistosamente se apossando
daquilo que nos resta
de fazenda

DAS MENTIRAS

Aí está então, com o freio nos dentes, o dia das mentiras.
Coisa má que tem um dia, como escape, para acontecer uma, e apenas uma, vez no ano.
Como: (se houvesse o dia)

da infedilidade conjugal
da fraude fiscal
do roubo

do latrocínio
car jacking
por esticão
do arredondamento para cima das operações bancárias
do spread livre

da cleptomania
do engano nos pesos
e nas contas
e nos trocos

o dia da homossexualidade e da
prostituição
do lenocínio
proxenetismo

do tarado sexual e do
pedófilo
do fumador e do alcoólico

do naufrágio do petroleiro a abarrotar de crude
do degelo
das calotes polares

o dia
da fisalizaçãp da ASAE
da avaliação de professores
do torcicolo
da entorse

como se todas estas
pequenas pragas pessoais
tivessem um só dia
para acontecer em todo o ano

tal qual a mentira
no dia 1
de Abril
crie-se o dia
universal da Fome

sábado, 29 de Março de 2008

quadra do azar

quando o azar acomete
um homem não tem hipótese

até o frio do sorvete
lhe afecta os dentes da prótese

sexta-feira, 28 de Março de 2008

ABRIL

Alem do mês do dia 1
é ainda o mês do dia 25

Alguem mentiu?
Onde está a mentira?

1 de ABRIL

não resulta qualquer dano
mais atenção merecia
ao que se faz todo o ano
se dedicar um só dia

o drama é que não é todo o ano - é toda a vida.
Começa por que nascemos quase todos dela, da mentira,
ou do descuido, ou do engano

e depois - é toda a vida

mentimos até que exalamos o último suspiro

pelo que é visivelmente pouco dedicar um só dia à ilustríssima senhora

Mais justo parece que seria
dedicar-lhe todo o ano
à exceção
do seu único dia

too much

de um dia para o outro aparecem 70-80 páginas visitadas do (h)ortografias.
É muito?
É pouco?

Para mim é muito. Tremendamente gratificante saber que se chega a "tanta"gente

Quando em Moçambique - há mais de 30 anos!- um amigo militar fez uma edição de autor de mil exemplares dos seus arroubos poético-literários.
Ao que me lembro, péssimo.
De igual modo julgaram seus familiares, que não perderam tempo a comprar, a preço de mercado, toda a produção espalhada pelas Livrarias do país.

o meu amigo - ante o fulgurante sucesso de vendas da mercadoria- é que não hesitou em contactar a editora para reclamar reedição (custeada por si, como evidente) desta feita não para mil mas para dois mil exemplares.

Rezam as crónicas que a família é que perdeu a veleidade de tentar lavar o nome ao que parece nobre, digno, honrado - desde havia séculos até à data em que um rebento se lembra de sonhar
com a notoriedade para a Família toda.

Espero não esteja acontecendo fenómeno semelhante com o (h)ortografias, sei lá:
alguém que esteja contratando visitantes, os tais 70-80, para me levar de vez a desistir da escrita quando as marcas baixarem para os inexoráveis dez ou doze.
Sei lá!

quinta-feira, 27 de Março de 2008

(H)

escrever é como semear - uma aventura com final misterioso

acabo de semear meloa, melancia, melão. Em dois meios/processos bastante diferentes:
directamente na terra (negra, fofa, fértil, morna) 3-4 sementes de cada espécie,

em viveiro: numa das minhas placas flutuantes, onde espero elas germinem, emerjam, se desenvolvam até serem transplantadas para próximo das que foram semeadas na terra negra,fofa....

anotei em casa, na Cozinha, junto à porta (já Vos disse que tenho um enorme pé de hortelã
tentando vingar numa frincha de cimento no local mais conveniente de todo o espaço habitacional - a Cozinha) em folha de papel A4 a data do acontecimento: 27/3.

por isso eu digo que escrever é como semear. Nunca a gente sabe o que vai dar

e a respectiva Quadra Pra Pular

entre o homem e a mulher

não há diferenças de fundo

é assim que a gente quer

pra não se acabar o mundo

a GUERRA

Homem/Mulher

Melhor? Pior?

Diferente.
Mulher: - fenda com pequena excrescência
Homem: - excrescência com pequena fenda

diferença mínima
pequena

escuro na sala

meteorologia ameaça chuva

a sala está escura

cheira a roupa lavada, a cinza e a carvão de lume de chão,

ficou na mesa,
do almoço,
uma taça de vidro com restos de salada de agrião

cheira a salada de agrião
temperada com limão

não é ensaio de cheiros
nem de rimas
nem ficção

é a realidade interior
de uma causa exterior
de habituação

AGRãndável

juntar o til

ao agradável

quarta-feira, 26 de Março de 2008

estória devida

acabo de ouvir na Antena 1

não sei qual a audiência. mas seguramente algumas dezenas de milhares.
nas mais diversas situações:
à pesca
a sachar as couves no hortejo
na cama - quem sabe num encontro amoroso clandestino
na sacristia o padre enquanto o sacristão religiosamente o paramenta
numa carroça -mula a trote a fugir da tarde agreste em direção ao lar
ao calor do lar

numa casa-de-banho pública pelo rádio do homem da carpintaria que fica ali mesmo ao lado
num barquito de pesca
em travessia aérea doméstica, de curta duração
em Cozinha de Prisão, em que detidos descascam batatas para a próxima refeição,
em Lar de Idosos
em Creche de Aldeia Transmontana
em Taberna da raia de Espanha
em Serpa
Vila Real

é sempre bom
saber que chegamos a alguém

voo/bailado


viver no campo tem os seus inconvenientes: chuva, frio, geada, lama....
também tem os seus convenientes:
desenhos novos
a quase toda a hora

terça-feira, 25 de Março de 2008

reencarnação

Silvestre estava esquecido há muito tempo

há 2 dias li Pessoa no seu escritório da rua não sei quê - dos Douradores? - observando uma varejeira (azul/preta/esverdeada)
que ele-próprio incarna após tanto observá-la

vê todo o escritório pelos olhos multifacetados de mosca varejeira
e o próprio Pessoa, que tenta matá-la com um pequeno volume de papel
- um caderno do seu trabalho diário de contabilista?

não será Silvestre a minha
azul/preta/esverdeada
mosca varejeira?

regresso

INSTRUÇÕES PRIMÁRIAS
A VOLTA DE SILVESTRE
1- garanto que tinha saudades. Palavra de honra, juro. Estive agora com ele. Coitado, no Inverno no Monte ,cheio de frio. Nunca mais ninguem se lembrou dele. Não é justo.
2 – agora é professor na Aldeia (os conterrâneos tambem são pouco ambiciosos, não se juntam para bater o pé político à promoção a Vila, num concelho com 7 000 habitantes, um lugar de 800 não teria direito a esse galardão?) professor, dizia, de Agricultura Biológica, Ecológica, Natural, Autosustentada, sei lá – professor voluntário para cerca de uma dúzia de encartados da vida como ele, dos seus 65 ou de aí pra riba.
Silvestre é professor de idosos na Aldeia da Igrejinha. Os alunos, à sua semelhança, são mais de apreender pela visão do que pela audição. Eles-próprios cultivam as suas leiras de horta num espaço, limitado, a essa prática destinado. E Silvestre é mais para palestrar sobre as coisas alimentares do mundo, agora a crise dos cereais que levou o preço da carcaça para o nível do pastel-de-nata ou do jesuita, por via da utilização de trigo na produção de combustível para mover as Berliets que puxam os óbuses para bombardear os inimigos.
Qualquer dia estão a fornecer-nos pão feito a partir do crude ou do Brent ou lá como se chama a lama betuminosa que vai pondo esta bolinha-de-escaravelho em polvorosa.
A horta de Silvestre, aqui pra nós, é uma autêntica vergonha. É certo que o tempo (aquela coisa anunciada na telvisão por um senhor de laçarote chamado qualquer coisa TESO) também não tem sido nada favorável: Geada sobre geada vai lhe crestando o viço das batatas, a floração das favas, a rebentação dos pimentoeiros e dos tomates. Mas não lhe digam nada, porque ele está muito convencido...sabem como é Silvestre!
3 – foi agora a Badajós com a sua turma. Há coisa de 8 dias. Ver fruticultura dita ecológica: pessegueiros; ameixieieras, pereiras, macieiras; amendoeiras.
Que eles produzem não só bem como em quantidades próprias da Indústria. Produtos químicos de síntese, perigosos como os tiros de óbus da metáfora anterior, são substituidos por arranjos tecnológicos de proveniência natural (extratos de plantas produzidas na India, por exemplo), por ardis ou armadilhas(em português porque em espanhol é trampa) , recorrendo à manipulação de odores sexuais, ditos feromonas, que levam os machos das pragas a uma baralhação total e à consequente incapacidade de buscar as companheiras verdadeiras.
Silvestre veio feliz pela oportunidade que proporcionou aos seus alunos de verem vinhedos e olivais
a perder de vista, para além dos ditos ecológicos pomares de espécies variadas. Por terem visitado uma Fábrica de Amêndoas (ecológicas também em cerca de metade), que labora a produção de 2.000 hectares distribuidos por aproximadamente 500 associados. Porque a Fábrica – Silvestre não perde oportunidade de realçar o facto- é propriedade de uma COOPERATIVA.
Silvestre até foi técnico da Cooperativa Hortícola do Divor. E sabe que uma das razões do seu fracasso foi a falta de espírito cooperativo das largas centenas de associados.
Silvestre só no regresso fala na vaga colonizadora de nuestros hermanos sobre os ricos e irrigáveis solos do nosso até aqui inóspito Alentejo: os MAIORES Lagar e Olival do Mundo são de agricultores espanhois em herdades compradas na Bacia do Alqueva. Motivo de orgulho para nós, alentejanos? Silvestre diz que não
Outra das razões da nossa inquestionável incapacidade de fazer agricultura a sério é o divórcio visível entre a prática e a técnica. Entre as aulas teóricas (a agricultura mundial em crise, trolaró, renhónhó) de Silvestre e a sua Horta mexeruca. Onde os seus conhecimentos teóricos não são suficientes para evitar os efeitos nefastos das geadas sobre a leira das batatas, ou a destruição maciça das favas sob impenitente ataque de piolho
Silvestre não gostaria que se lhe falasse deste modo. Mas a realidade é incontornável:
um dos anfitriões que recebeu a turma, no pomar de fruteiras ecológicas, fê-lo numa tripla condição: professor competente; técnico conhecedor; co-proprietário bem sucedido
Com gente assim, Silvestre está seguro de que os maiores Lagar e Olival do Mundo seriam mesmo no Alentejo e de gente alentejana

meditação de teso

só sei
que nada ceio

ou de frustrado sexual:

só sei
que nada seio

fruticultor original

nas Alcáçovas, laranjicultor promete trocar laranjas por quadras populares.
A minha tentativa:

nos arrabaldes da Vila
há muitas hortas e granjas
Só me falta descobri-la
-que por quadras dá laranjas

parece que Engomadinha
se chama a Horta/Pomar
levo uma cesta à tardinha
a ver o que me vão dar

eu cá por mim, cá na minha
venho de mãos a abanar

segunda-feira, 24 de Março de 2008

do tal Paulinho Assunção - sobre os vagalumes

também lhes chamavamos "caga-lumes", "vaga-lumes", "luz- em- cus" e outras maravilhas que agora não me ocorrem- isto digo eu.
agora o tal Paulinho:

"alumbres são porções de vagalumes, pulsações ali onde o escuro faz fronteira com o nada"

e é isto que eu acho que é a poesia. Eu uso as palavras para fins concretos, como para pedir uma sandwish de presunto ou fazer um relatório sobre uma viagem de estudo a uma Fábrica de Nada

PAZcoa

tempo lindo para se passear no campo
para se ser grilo
à sombra da serralha

Para se ser poeta
à beira do ribeiro

lindo
para se ser tudo

à exceção
de
cordeiro

domingo, 23 de Março de 2008

só LEMBRAR

À MEIA-DÚZIA de ociosos que ainda perde algum tempo a ler-me

que no próximo dia 26, após noticiário das 17 horas, a Antena 1
vai transmitir adaptação radiofónica de estória
deste vosso amigo:

"o Homem que mordeu o Burro"
verídica - garantiu quem me a contou

não perca,
e diga-me depois o que é mais intragável:
ler-me ou
ouvir os outros lerem-me

h-ortografia

muito melhor na primeira do que na segunda:

a geada queimou as batatas - voltei a semear, já se recompuseram
tenho em perspectiva: favas e ervilhas; batatas, alhos e cebolas para todo o ano;
tomates, pimentos e alfaces para o Verão;
agriões desde o Inverno até nem eu sei onde,
e todas as minhas experiências
de culturas aquáticas (não o mesmo que hidropónicas)

na ortografia - o que é que eu descobri?:
duas palavras novas?: PAZcoa
e
Sopeirioridade ?

se eu trabalhasse numa agência de publicidade,
talvez ainda a descoberta me servisse,
de resto, em que podem adiantar estas duas novas construções linguísticas
a quem adregue lê-las,
mesmo que se trate
de um cirurgão da Fala
ou de um aprendiz de feiticeiro?

da Horta eu sempre vou comendo

com a escrita,
só gastar
energia eléctrica-nem tanto -
mas muito
a vista

a mulher

era de uma arrogância incomensurável
mandava a torto e a direito

com um ar assumido
de sopeirioridade

PAZcoa Feliz

era mesmo o que fazia falta

ao que dizem as escrituras, comemora-se a ressureição de Cristo

a de Lázaro, por intermediação de Cristo, não me disse grande coisa,
os livros não esclarecem quando, nem por quanto tempo, mas intui-se que voltou ao túmulo em definitivo.

Maomé, na boca do Corão, também foi levado ao Céu.
Julgo que montado numa égua famosa - que também se ignora se continua pastando no Além.

Domingo de Páscoa,
de coisas bem terrenas
está uma manhã de sol de fazer inveja ao paraíso
já a Meteorologia dá chuva forte para o fim da tarde.

acendi o lume na lareira,
tomei aí o meu café depois do banho,
com uma calma e serenidade místicas

foi nessa postura
entrando-me ainda o sol pelo postigo
que cortei
as dez
unhas dos pés

como metafísica
talvez compense o não haver chocolates

sexta-feira, 21 de Março de 2008



o branco não é neve

o amarelo não é ocre

flores talvez

como as que cortaram

a orelha de Van Gogh

de Paulinho Assunção


"dois cálices de bebida verde, dois cálices de bebida grená - e a tarde com as janelas abertas sobre o tampo de mármore
..............................................................."

não me importava nada de ter sido eu a escreviver esta cena

boa Páscoa a todos

dia de

início de PRIMAVERA (?)

da ÁGUA

da ÁRVORE

do AMBIENTE

da POESIA (e por ser dia) :

do Diabo que vos
aguente

arco-IRIS


chove
de seguida vem o sol
com suas enormes
finas
patas de aranhol
tecer em Portugal
- como se Portugal fosse uma moldura -
a um dos cantos
caprichoso
estranho
com brilhos de Vermeer
arco-IRIS de pérolas
de
ternura

quinta-feira, 20 de Março de 2008

penso eu de que...

começou hoje a Primavera e a Páscoa
é no domingo

é um jogo maluco que há aqui, em que entram:
o ano ser comum ou ser bissexto
o plenilunium e o primeiro domingo a seguir a ter início
a Primavera
- aí começa a Páscoa

o que significa
que domingo de Páscoa é sempre em lua-cheia
e nem sempre a Primavera
começa num domingo

quarta-feira, 19 de Março de 2008

prenúncios de oiro

julgo que esta bodega está mesmo a dar o berro

volto a ver enaltecer tanta iniquidade

ressuscitar tantos fantasmas:



a mumificada "reforma agrária"

é ainda culpada de o alegado proprietário da Herdade dos Machados

não conseguir vender os seus 6 000 hectares

a promitentes compradores espanhóis


para instalarem O MAIOR OLIVAL DO MUNDO

depois de terem instalado já
o seu MAIOR LAGAR

e nós, alentejanos, exultando com tudo
como se tudo fosse nosso

esta bodega toda só pode estar mesmo a dar o berro

arco-IRIS



às vezes os deuses capricham em presentear-nos com estes pequeninos mimos - tão tocantes que fica a gente sem saber como agradecer.

como se alguem nos chegasse a casa com meia-dúzia de ovos ou dois borrachos para fazermos uma canja, e nós estivessemos com uma ligeira febre e pontos brancos na garganta, e nos dissessem: não venha cá fora, antes que piore e caia aqui de cama- sem ninguem que lhe chegue um comprimido e um copo de água.

o meu, campestre, hoje, mesmo ao cair da tarde, contemplou-me com este capricho colorido .

viagem de estudo

ontem fui numa viagem de estudo ao estrangeiro.
com os meus alunos de Agricultura Biológica.

fomos a Espanha.
fomos aqui ao lado a Badajós.

afinal tão perto

fomos ver como é possível produzir
os frutos que consumimos diariamente
sem produtos tóxicos de síntese

fomos a Badajós - tão perto -
afinal tão distante

segunda-feira, 17 de Março de 2008

também já tive...

43 anos.

revejo lista de candiadatos da APU à Câmara Municipal de Évora, que anda por aqui perdida entre páginas do meu velho Dicionário de Língua Portuguesa:
cabelos, sobrancelhas, barba - toda a pilosidade negra, e um sorriso meio-sacana de quem acredita que mesmo a política pode/deve ser uma prática otimista.

cumpri mandato de 4 anos, saí, fui substituido por quem não pensava como eu. Quatro ou cinco anos mais novo, até sugeria que eu, pela idade, começava a pisar a zona da senilidade. A despeito
de Presidente e seu Ídolo ideológico serem mais velhotes....(este último então uns bem medidos 30 anos)

O que será feito deste jovem génio seguramente ainda iluminado?

parto-time

as gatas estão prontas a parir

avozinha e A Gata Cristhie têm barriga de saco de ladrão de peras.

entregaram-se à cíclica licenciosidade felina de Janeiro, e agora aí estão prenhas (eu sei que é prenhes que se diz, seus ourives das palavras) mesmo a rebentar de gatos à ganância.

a gataria aqui em casa vai por isso entrar em parto-time.

espero que não chateiem (chatear, do francês CHAT, estou em crer) muito, já que uma vez, nos Canaviais, uma parturiente conseguiu insinuar-se entre roupa guardada no guarda-fatos e aí tratou de se libertar da carga, no decorrer da noite.
Pormenor de memória: de cada vez que a gata (que a gata também não é aconselhável que se escreva, sei) dava ao escuro um filhote, havia miadeira de não deixar dormir.
Acendia a luz, parece que o mesmo interruptor desligava em simultâneo o mio do recém-nascido

Levou tempo - de sono e de sossego - até localizar a origem dos trabalhos de maternidade

otimismo/pessimismo - minha visão

o acesso ao Bar tem 10 degraus

pessimista - a subir
otimista - a descer

domingo, 16 de Março de 2008

tonterias

vejo a minha rega subterrânea, que sempre me pareceu eficiente mas a que ninguém ligou ponta-de-corno.

e na verdade nem é assim nada de famoso.

desenterro-a, olho-a, comento pra mim próprio:
aqui está uma das minhas tonterias.

mas penso logo de seguida:
"tonteria não é o que eu fiz sem resultar - é o que deixei de fazer com receio de que não resultasse"

Julgo ser esta a grande pecha da Investigação e da Ciência em todo o mundo. Em Portugal de maneira patológica, intratável, terminal

tonterias

tulipa criada exclusivamente dentro de água, em placa flutuante. A foto é de hoje, 16 de Março de 2008.
Vantagens- economia de:
-água (fraca perda por evaporação; s/ infiltrações)
-mão-de-obra para cuidados culturais e rega

eu não sei nada disto: temperaturas, ph, riqueza em fertilizantes da água, etc,etc.
Sei é que funciona. Assim mesmo às cegas funciona. E penso que valia a pena ser estudado.

Se o meu leitor quiser experimentar, pode conseguir ainda resultados mais satisfatórios.
A Ciência não se perde em minudências. Só estuda/ensaia coisas sérias

sábado, 15 de Março de 2008

isso

deshipnotizador

será que se escreve assim? com ou sem desacordo ortográfico?
ou com acordo desortográfico?

é verdade:
nascemos todos hipnotizados

alguns (poucos) - Pessoa, Einstein, Beethoven
Aristóteles, o 515, que foi, comigo, soldado de Artilharia em Vendas-Novas
e acreditava em seres extra-terrestres
alguns (poucos) dizia
conseguem acordar

mesmo assim não de forma total
e para sempre

sexta-feira, 14 de Março de 2008

do ACASO ou UTILIDADE prática dominante?

DIA DO CONSUMO

Escrevo em vésperas do “dia do consumidor”. Con-sumidor; con-sumidouro, dia do consumidouro.
Vivemos não uma época com sumo - a época do consumo. Com um dia dedicado a tudo que seja passível de nos levar a consumir: Dia de S. Valentim há não sei quantos dias (está a ver, tb designado dia dos namorados); amanhã o já citado dia do consumidor – que não sei ainda a que e a quem é destinado (quem compra prendas para oferecer a quem) ; já de enfiada vem o dia do PAI, que é tb no decorrer deste mês de Março; chega o advento da Primavera quase de mistura com a Páscoa – tudo efemérides a celebrar e a convidar a abrir os cordões à bolsa.
Sim, porque consumir significa antes do mais comprar. Copos de tinto, vermutes, bicas ao balcão do Bar habitual; (in)utilidades na Loja do Chinês; consultas médicas no Centro de Saúde; livros novos para encher a estante acabada de comprar; comprimidos de cores apelativas na Farmácia.
Estória recente chegada via e-mail, que traduz na perfeição o dia que amanhã se comemora:
Homem quer desfazer-se de frigorífico- ainda em boas condições de funcionamento. Instala-o no quintal, próximo da Rua, com as indicações que julgou convenientes:” em bom estado de funcionamento, dá-se a quem queira levar”
Durante uma semana ninguém pegou no eletrodoméstico em oferta. Recorrendo aos seus conhecimentos de psicologia social, e continuando interessado em desfazer-se do mostrengo, o nosso homem resolveu alterar a redação do seu letreiro. Para: ……Vende-se – 50 euros.
Logo no dia seguinte já tinha interessados a bater à porta, tentando negociar o refrigerador. Só que o consumidor compulsivo de que vimos tratando não se coibiu de revelar, sem demora, o ramo colateral do seu instinto.
No dia seguinte, o frigorífico dos 50 euros já não estava lá: Tinha sido ROUBADO

Não sei, portanto, a quem, e a quê, se destina o dia de amanhã: a proteger o consumidor involuntário, ou mesmo o patológico, da sanha do fornecedor?
Porque consumidor é uma das duas grandes categorias dos seres-vivos, o homem incluído. A outra, sem a qual esta não existiria, é a dos produtores. Basicamente é isto: há os que produzem, por um lado, por outro, aqueles que na sua essência se dedicam ao consumo. Essencialmente produtores são os vegetais, que, através da energia solar e de alguns nutrientes minerais que vão buscar ao solo, e tb da água, pela fotossíntese produzem a base de consumo do chamado reino animal. As ervas (produtores) alimentam as cabras, os coelhos, produzem sementes que alimentam as perdizes – tudo consumidores, consumidos por sua vez pelos herbívoros e pelo omnívoro homem, que é um dos últimos elos da chamada cadeia trófica. Não o último, porque ainda há quem consuma o próprio homem, mesmo que enterrado a profundidade conveniente.
Este paleio barato para dizer o quê? : que todas estas trocas naturais se fazem de maneira equilibrada, daí que o mundo funcione sem pender demasiado para o lado dos que aparentemente são mais fortes. Não é por haver leões e leopardos que deixa de haver zebras e gnous. Antes pelo contrário: só há zebras e gnous por haver leões e leopardos. Se assim não fosse, cedo os primeiros esgotariam a sua própria fonte de alimentos,e não tardaria a extinguirem-se. Uns e Outros.
Se o homem precisa dos combustíveis fósseis para produção de bens que lhe são úteis, tudo bem. Se especula com eles como com ações de pastas-se-dentes ou de Hotéis de Luxo para férias milionárias – alguma coisa vai muito mal com o binómio Produção/Consumo. Cujo fim não se augura nada promissor.

Bom dia de amanhã para o meu amigo

quinta-feira, 13 de Março de 2008



gladíolos do ano passado

cultivados exclusivamente dentro de água

é legítimo esperar flores iguais para este ano.

Ou serei utopista?

mais flores, mais flores, mais flores



(de O´Neil: só com o meu hálito já consegui fechar 3 bailes) isto mais ou menos, claro

só para me questionar se eu naõ consigo influenciar uma única pessoa.

Gladíolos cultivados exclusivamente dentro de água: não precisa de:

regar

mondar

cultivar. É só semear e esperar.

parafraseando outro poeta:

merda - sou lúcido

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ensaio

falhado

pretendia" postar" - é assim que se diz?
texto de um dos meus últimos ídolos
da escrita:

o já falado Paulinho Assunção

Paulinho não sei
mas assumido sim
ou é que assumir
não tem a ver com Assunção?

fauna desta tarde hortícola

uma rela
verde como uma borracha da minha primeira classe
com patitas
ventosas

um fura-pastos
que é uma espécie de centauro
entre o lagarto
e a cobra

um sapo
do tamanho da rela
só que em vez de verde
assim quase
da cor
do entardecer

rolas em redor
cantarolando
como quem acabe
de construir a casa

e eu, claro,
uma marioneta solta
nas mãos de um qualquer deus
sem nada
que fazer

dia de horta

o pai considerava a horta uma arte menor.
coisa de mulheres.
limitava-se a lançar sobre a terra mal amanhada
um punhadito de sementes de espinafres
um dedal de esferas minúsculas de couves e nabiças

próximo do poço
a jeito de ser a mãe a regar a sua improvisada sementeira

o pai fazia searas
com uma parelha de mulas e um carro
em que transportava alfaias e sementes
e adubos

e no começo do verão
de regresso à eira
carradas enormes
de trigo e de cansaço

nunca trazia o sol
porque ele sempre escapava a ser ceifado
se esgueirava
no sentido oposto
à eira

quarta-feira, 12 de Março de 2008

bolas

acabo de receber telefonema
de amigo
que não vejo há mais de 30 anos

esgotou-me bateria telemóvel
falou pelo menos vinte páginas

porra
estava bêbedo

terça-feira, 11 de Março de 2008

lavoura

sei que me lês
enquanto escrevo

é como quem lavra
com um bando de arvéolas na esteira do arado

cada uma à espera
de seu verme
ou seu
bocado

já agora,

outra vez a guerra professores/ministra:

os professores trabalham
a ministra governa

os professores dão aulas
a ministra vê dá-las

os professores são docentes

a ministra - porque não dá aulas
não é docente

é indocente


PULHÍTICA

hoje, 11 de Março, parece que estiveram reunidos os 4 maiores Bancos privados nacionais (que já não se sabe lá muito bem, em matéria de dinheiros, o que é serem privados, o que significa serem nacionais). Mas vá, estiveram reunidos.

quando os terceiridosos como eu se queixam das maleitas mais diversas: colestrol, tensão alta(ou, pior, baixa da mesma - conseguiu apanhar a onda da metáfora!), reumáticos por tudo quanto no corpo é dobradiça, males do estômago, insónias, diarreias e outras incontinências escatológicas,
enquanto isso, os senhores dos 4 maiores Bancos privados nacionais reunem durante não sei quantas horas para declararem no decorrer de concorrida conferência de imprensa que sofrem de uma uma única, mas global doença (pandemia) , que dá pelo nome c(l)ínico de "falta de liquidez".
o que será equivalente a excesso de solidez? Não me parece - mas vá!

julgo é que corresponde, em linguagem vernácula, a dizer que têm lucros fabulosos mas estão TESOS.
um pouco a estória do compadre que em altura de trombada de porco se gabava de ter vendido muito bem a sua vara de montado. Só que o comprador no fim não lhe pagou.

parece é que a bolsa do ti Sam é que está mesmo com excesso de liquidez: é água a mais.

em parte pela competitividade é que mandaram o Muro de Berlim para o maneta, mas pelos vistos tambem o seu liberalismo económico, as suas vias não sei quantos desaguaram em pantanal cuja extensão ainda apenas se insinua.
vamos ver até onde é que chega, descobrir a potencialidade suicida do seu lodo.

Hortografias

para os meus leitores habituais:
as batatas não morreram todas
sob efeito das geadas.

para os meus amigos das ingrícolas:
escuto
enquanto escrevo
a Sonata a Kreutzer
de Beethoven

PALAVRAS

só há palavras
há 30 ou 40 mil anos

antes de haver palavras
haveria grunhidos
cacarejos crucitações
latidos

a palavra surge
como as peles para proteger do frio
o fogo para cozinhar os alimentos
a roda para facilitar transportes
a arte de esculpir
como forma de chegar aos calcanhares dos deuses

as primeiras palavras
terão sido monossílabos
e já elas na prática serviriam para tudo

com o andar dos anos
dos séculos dos milénios
foram sendo inventadas
para nomear as coisas descobertas

até aos dias de hoje
em que são elas as palavras
a determinar
o que há
a descobrir

já agora,

entre a ministra e Camacho
não sei se você concorda
uma - a ministra - é gaspacho
outro - o Camacho - é açorda

com pedido de perdão à culinária alentejana

segunda-feira, 10 de Março de 2008

defeso

o tempo não anda bom para caça/pesca das palavras
ia a escrever cinegética na esperança de que a palavra fosse hermafrodita
mas não - dá só para caçar

pelo que não serve

para se apanhar a palavra
tanto pode ser pela arte de caçar
como através da pesca

caça de pêlo ou ave
-lebre, tordo, perdiz, coelho-
não é fácil contornar
a manha da palavra

pior com a palavra aquática
que ou é esquiva
ou esquiva e escorregadia

sexta-feira, 7 de Março de 2008

temperos em casa

insólita situação. Se não única, raríssima no mundo:

Cozinha vulgar
porta de alumínio, verde, virada para a rua
rodapé de azulejos
um degrau de cimento antigo tanto quanto a casa

apareceu primeiro
agora ganhou porte
cosido c´oa parede no interior da casa
um descarado pé
de Hortelã

fumar

como sabem, deixei o vício de fumar
ou foi o vício de fumar que me deixou a mim?

já passa dos dois meses

ganhei, como também já expliquei, vício pior
que é o de não fumar

neste preciso momento, e isto só agora o vou dizer,
estou com
uma insustentável vontade de não fumar

não sei é se consigo

coração

há não sei quantos anos/séculos/milénios se liga a ideia de sentimentos
ao minúsculo relógio biológico
que pulsa como rãzita assustada fora de água

porque
há não sei quantos anos/séculos/milénios- antes da citada ligação-
tudo o que manava amor/ódio/paixão
pensava-se que tinha como origem
os escatológicos intestinos

continuo na dúvida:
os intestinos - pela cor de sabão e pelo tamanho e forma
de mangueira de jardim
pela temperatura e pelos vapores vulcânicos que sempre os acompanham
não vejo os intestinos
capazes de segregar humores tão finos

o coração
lembra-me sempre órgão de tacho de cozinha:
o senhor Matias do Talho à Porta-Nova
todo vestido de branco
afiando uma enorme lâmina de faca
"diga lá então o que vai hoje"- sempre afiando
a enorme lâmina de faca
e a gente pedindo "coração"
-que só por si, sem acompanhamento, não dá sequer
uma refeição

sinceramente me parece
que para sentimentos
nem coração
nem intestinos

desacordo ortográfico/ acordo desortográfico?

como já se sabe, só dentro de meia-dúzia de anos. e vivó velho.
porque é preciso alterar compêndios escolares, dicionários, rever mapas - digo eu - reescrever a História, actualizar a própria toponímia, um não acabar de incumbências para que nem se calhar a balizada meia-dúzia de anos vai chegar.
olhem, eu cá por mim deixava tudo como está. Isto é: permitia a cada um que fizesse as revisões a seu belo talante ( não sei onde nem há quantos anos eu li o palavrão) , começando logo por fazer uma profunda faxina na matriz deste alvoroço todo, na nossa própria língua, que chamamos com orgulho de Camões.

vou, como já disse, diariamente à escrita do amigo brasileiro que tem nome de jogador de bola: Paulinho Assunção. E lá vem ele hoje com este naco de prosa que vem atestar a minha modesta opinião.´
Começa por que a realidade de qualquer um destes parceiros ( falo da salada: pessoas, terras, geografias, climas, hábitos, flora, fauna) são tão diversas que não podem os maiores enxertos linguísticos homogeneizar tão díspares realidades. transcrevo do amigo Paulinho:

"meia dúzia de pintinhos no ora ali ou no ora aqui, dois galos, um pescador com o embornal cheio de bagres, um touro debaixo da mangueira.

o leitor português de Paulinho alguma vez mais vai (com ou sem acordo ortográfico) saber descodificar a pequena frase?
diga-me como entende, como lê/vê um touro debaixo da mangueira!
O mesmo que aconteceu comigo numa primeira leitura. Só recorrendo ao meu sótão de africano descobri que mangueira não tem nada a ver com esse objecto que usamos nos jardins para regar as plantas.
Mangueira no Brasil, como em todas as Zonas tropicais, é uma frondosa e deliciosa árvore de fruto. Manga - você conhece, né!!

não nos preocupemos pois com esse rabisco colonial que é o discutido acordo.
abraços

quinta-feira, 6 de Março de 2008

bucólico

as perdizes vêm beber água, à rua do Monte, dos meus bioensaios.

como alguns deles estão bem condimentados com adubos, espero não envenenar as simpáticas amigas

Hortografias

mau para o negócio:

de Horta - é a segunda vez que as noites frias e/ou geadas me esturricam as batatas
de Grafias - ao que parece, o acordo ortográfico panlusitano só deve estar pronto a servir à mesa
dentro de seis anos. Quando lá (se) chegarmos, já estamos desdentados.

abraços

quarta-feira, 5 de Março de 2008

lembrete

só recordar aos cozinheiros que lerem estas divagações e eventualmente
venham a adoptar alguma sugestão
- o autor da ideia não se importaria nada de testá-la
após transformação em prato de cozinha.

até já lambo os beiços ....
INSTRUÇÕES PRIMÁRIAS



ADUBO DAS PALAVRAS


1 - Os colegas horticultores é que sabem que os adubos há-os de fundo, compostos normalmente, contendo vários elementos fertilizantes de efeito retardado, e há os ditos de cobertura, de efeito imediato, que se aplicam sobre as palavras, perdão, sobre as culturas, quando iniciam a fase de visível crescimento. São benéficos para as proteger do frio ou excesso de humidade nas raízes, passando as folhas de um amarelo de anemia para um verde de pujança de um dia para o outro. São os chamados nitratos, que aplicados em excesso ou em quantidades que as plantas jovens não conseguem de todo assimilar se infiltram no terreno e contaminam linhas de água subterrâneas – de que tantas vezes nos servimos para uso doméstico, quer para beber quer para cozinhar. Com graves efeitos sobre a saúde de nós todos enquanto seus utilizadores.
2 – há quem fale em adubos também em culinária. Julgo que para referir alguns tempêros. Mas eu não domino convenientemente essa semântica.
Já me parece, isso sim, é que os mestres cozinheiros, a começar pelos indígenas, dos bons Hotéis e Restaurantes da Cidade, podiam/deviam ler os Manuel da Fonseca, Antunes da Silva, Jerónimo Lagartixo, recuando um pouco até Florbela, por que não André de Rezende…e procurarem inspirar-se nos seus textos para confeccionarem suculentos pratos regionais ou as bem gostosas sobremesas repescadas do misticismo que caruncha as paredes das celas dos Conventos.
E nomearem mesmo alguns desses exercícios de mestria, obras-primas do prazer de cozinhar, a partir de autores locais – também eles mestres no doseamento dos adubos
com que sabiam servir a recender as suas inimitáveis açordas literárias.

Manuel da Fonseca:
A um gelado artístico como sobremesa não cairia bem a designação de CERROMAIOR – obra-prima do saudoso autor alentejano?

Ou uma salada farfalhuda, despenteada, agreste …( não sou eu a dizer como! O mestre cozinheiro é que deve saber como apresentar uma salada “SEARA DE VENTO”)

“ O FOGO E AS CINZAS”não se adequaria a um grelhado selvagem de gamo ou javali?

CHARNECA EM FLOR – de Florbela – não ficaria bem a uma salada de frutas com produtos regionais?

SUÃO – de Antunes da Silva – não ficaria bem a um prato transpirado, cozinhado em cataplana, sei lá, eu de cozinha é que percebo mesmo muito pouco

Ou APRENDIZ DE LADRÃO, ou VILA ADORMECIDA – do mesmo autor – não serão suficientemente fortes, expressivos para inspirar uma sopa de tomate com orégãos
ou umas pacatas e inofensivas migas-gatas?
Ou GAIMIRRA – não serviria para um abrasivo escabeche à maneira antiga, que só nomeá-lo arranha na garganta de clientes de estômagos menos tolerantes?
“DOMINÓ PRETO” – um outro título de Florbela – não assentaria como luva a uma sobremesa de chocolate com aquela cor?

Estes nomes devidamente explicados em apêndice não serviriam para tipificar pratos de cozinha regional e ao mesmo tempo despertar curiosidades ( como um grito na Aldeia – Manuel da Fonseca- despertava pombos bravos no montado)?

Carnes selvagens de Churrasco não podem constituir uma refeição temática sob o grande título: CROMELEQUE?

Como não aproveitar, para este mesmo fim, ANTA, MENHIR, ou os próprios topónimos Zambujeiro; Almendres; Vale de Maria….?

Quando a gente não percebe nada das coisas é que é mesmo de nos metermos nelas. Não acha?
Abraços.

terça-feira, 4 de Março de 2008

agradecer

a Caneta - com um beijo muito grande ( ainda não entendo nexo de beijinho muito grande) por comentário ao meu anúncio de adaptação de estória à rádio.

a Jr, pela mesma razão um grande abraço. e um longo muito obrigado pelo petisco pago com produto do euromilhões

vícios por vícios

na morte de Gabriela LLansol _
fui à biblioteca de Arraiolos requisitar dois livros:
um falcão no punho
e
causa amante

já vi que é escrita que me agrada, fui a ela pela minha ultima descoberta literária, o já vosso conhecido Paulinho Assunção. não o que joga no dragão, outro, que deita fumo por tudo quanto escreve

segunda-feira, 3 de Março de 2008

sucesso?

só comunicar a quem tem a generosidade (exagero, claro) de me visitar aqui de vez- em- quando, que uma estória minha, já um pouco velhota, vai ser lida na Antena 1 (telefonia) , no ainda remoto 26 de Março - às 17 20 e às 21 20.

a estória foi me contada como verídica e chama-se "o Homem que mordeu o Burro" . asseguro apenas que é bastante divertida.

o programa é designado por História Devida - como que uma antologia de narrativas breves de acontecimentos verídicos, ou pelo menos verosímeis.
só para quem não tem nada publicado é motivo de auto-estima a inclusão dum texto em programa radiofónico de âmbito nacional.
e é esse o caso deste modesto aprendiz-de-feiticeiro

cada um tem o Belenenses que merece

parece que feito à medida de eu me adeptar:

pequenos desaires nos estádios, pequenas alegrias de retorno dos relatos.
Clube meão ( ali da zona do umbigo da tabela de classificação) , já tem dado a pequena tristeza da descida, a que se segue a tépida alegria de uma subida inesperada.

Nada de Sporting, nada de Benfica ou Porto. Ninguem grita por ele nas tabernas, não é team de exultações.

Agora até mereceu castigo. A Liga, ou lá que adereço feminino é aquele em que milita a minha esquadra, puniu-o com 6 pontos :
3 que lhe retiram do jogo que ganhou, mais outros 3 que correspondem a perder- mesmo sem pôr as chuteiras no relvado.

do meu feitio, do meu tamanho, cá por mim tenho o Belenenses que mereço

sábado, 1 de Março de 2008

PRIMAVERA

há searas
e há grilos
- sempre houve grilos -
e há o eles cantarem
e há o
a gente ouvi-los

ouvi-los nos seus trilos

não é por haver grilos que há searas
é por haver Primaveras

trilos há-os
porque há grilos
porque há searas
por haver Primaveras
sobretudo porque há o
a gente ouvi-los

mesmo que haja searas
e haja Primaveras
e haja grilos
só há trilos
se houver gente
a ouvi-los